domingo, 27 de abril de 2008

Visões da vida

Fonte: http://www.visoesdavida.globolog.com.br/ por Reinaldo Jose Lopes

OK, eu devia ser multado por usar o velho golpe do olho para falar de evolução, mas é meio inevitável diante das bobagens que a gente escuta por aí. Supostamente, o olho humano – e o de outros animais – é um órgão de perfeição tão extrema que jamais poderia ter surgido por um processo evolutivo lento e gradual. Bastaria uma pecinha fora do lugar para que ele fosse inútil. É mais ou menos o que dizem os opositores da teoria evolutiva desde os tempos mais primórdios. Tá na cara que eles nunca ouviram falar em daltonismo.
Se a última frase não ficou muito clara, eu explico: a capacidade de perceber cores no reino animal é um dos exemplos mais acabados de como a evolução consegue produzir uma aparente "perfeição" de forma completamente bagunçada. A percepção "colorida" que a maioria dos seres humanos têm do mundo é resultado de uma história complicada de idas e vindas, sem nenhuma progressão linear. Aliás, em termos de percepção de cores, nossa espécie tem de se curvar à superioridade de... um crustáceo. Isso mesmo: quando se trata de perceber cores, a criatura mais sofisticada da Terra é um primo dos camarões.

Base antiga
A capacidade de detectar cores depende primordialmente das opsinas, uma classe de proteínas que absorvem determinadas "fatias" do espectro luminoso, correspondentes ao que o nosso cérebro aprendeu a discriminar como os vários tipos de cor. Dizer que um objeto tem essa ou aquela cor é só uma forma descomplicada de dizer que ele absorve toda a luz que chega até ele, menos um determinado comprimento de onda. Essa pequena parcela refletida chega até os cones, células receptoras de luz e carregadas de opsinas nos nossos olhos.

As opsinas são apenas parte do aparato de percepção de cores. Antes de a informação chegar ao cérebro, é preciso processá-la de forma adequada. É por isso que os olhos também contam com sistemas especializados para comparar os "sinais" de cada pedaço do espectro luminoso com os outros, criando um contraste que é interpretado pelo cérebro como uma diferença de cor entre um objeto e outro, por exemplo.

Tudo indica que essa base inicial da percepção de cor é incrivelmente antiga. Algumas estimativas sugerem que os mais antigos animais, que talvez tenham vivido há 800 milhões de anos, já possuíam formas primitivas das opsinas atuais. Outra pista crucial sobre a antigüidade desses pigmentos sensíveis à luz vem das lampreias, peixes sem mandíbula que parecem estar na base da árvore genealógica dos vertebrados. Esses bichos já possuem quatro tipos diferentes de genes com a "receita" para a produção de opsinas, o que sugere que a base molecular para ver o mundo em cores surgiu nas fases mais primitivas da nossa linhagem.

Enquanto os vertebrados seguiam seu próprio caminho rumo à visão colorida, criaturas como insetos, moluscos e crustáceos começaram a experimentar formas de enxergar o mundo que nós só poderíamos chamar de exóticas. As abelhas, por exemplo, usam três tipos diferentes de cones, como nós, mas um dos membros do trio é sensível ao ultravioleta. As fotos no começo desta coluna ilustram justamente como nós vemos certas flores (à esquerda) e como as abelhas as enxergam, justamente graças à percepção do ultravioleta.
No entanto, isso é fichinha perto das capacidades dos estomatópodes, ou camarões-louva-deus, crustáceos marinhos que possuem 12 tipos diferentes de receptores de cor. Ainda não se sabe exatamente como esse aparato funciona, mas o certo é que ele consegue captar tanto infravermelho quanto ultravioleta (deixando as abelhas roxas de inveja, sem dúvida) e ainda detectar detalhes da polarização das ondas de luz – uma propriedade física que os nossos sentidos mal conseguem conceber.

Essas capacidades aparentemente mágicas de abelhas e crustáceos muito provavelmente foram moldadas pela seleção natural: se detalhes relevantes do ambiente, dos alimentos ou dos companheiros de espécie dos bichos podem ser captados usando tais informações, aumentam os "incentivos" para que a capacidade de percebê-los surja. Mutações nos genes que codificam as opsinas podem muito bem levar um animal a ganhar tais capacidades, porque o princípio básico de usar o pigmento para absorver certas faixas do espectro continua sendo o mesmo. Só é preciso "deslocar" um pouco essa faixa de absorção.

Evoluindo de novo
Entre as muitas cenas hilárias de "Shrek", a minha preferida é a que mostra o Burro Falante procurando uma flor azul com espinho vermelho, para usar como remédio contra a flechada que seu amigo ogro levou no traseiro. "Flor azul, espinho vermelho... flor azul, espinho vermelho... seria mais fácil se eu enxergasse cores!", berra o pobre burro. Eu realmente detesto estragar o timing de comédia do Eddie Murphy, mas o Burro Falante disse uma meia-verdade: a grande maioria dos mamíferos enxerga pelo menos algumas cores.

Voltando ao nosso tema da pseudoperfeição, a evolução visual dos mamíferos é um exemplo claro de que, muitas vezes, modificação não equivale a aperfeiçoamento. A visão humana normal é conhecida como tricromática (por causa da sensibilidade dos nossos cones a três fatias do espectro relacionadas, grosso modo, ao azul, verde e vermelho). No entanto, a análise dos genes que codificam as opsinas mostram que nós recuperamos essa capacidade "adaptando" genes mais antigos que só permitiam a visão dicromática.

Isso significa que a maioria dos outros mamíferos (Burro Falante incluído) enxergam o mundo de maneira que lembra os humanos daltônicos ou com outros problemas de visão de cores – ou seja, eles não distinguem o que podemos chamar de faixa vermelha do espectro. Poucos mamíferos realmente vêem em preto e branco – entre eles estão as focas e as baleias, além de várias espécies de hábitos noturnos.

Ora, outros tipos de vertebrados têm uma visão de cores bem mais elaborada. Alguns usam até gotas especiais de óleo para processar a absorção de luz das opsinas de maneiras mais sofisticadas e precisas. O principal motivo para a simplicidade dos mamíferos nessa área é provavelmente o fato de que nosso grupo começou sua existência levando uma vida noturna, no começo da Era dos Dinossauros. A necessidade de discriminar cores com precisão não existia, e essa se tornou uma bagagem evolutiva que muitos mamíferos carregam até hoje.

Machos e fêmeas
A exceção a essa regra parecem ser os primatas como nós – em especial os primatas do Velho Mundo. Os motivos por trás da nossa visão colorida mais complexa ainda não estão claros, embora existam várias hipóteses, como a capacidade de discriminar com precisão frutos maduros em meio à folhagem do alto das árvores. A visão tricromática aparece, em geral, de forma "alternada" entre os macacos do Novo Mundo, como os brasileiros – é comum as fêmeas serem tricromatas e os machos serem dicromatas.

O curioso é que estudos recentes estão levantando um fenômeno parecido entre humanos. Há indícios de que algumas mulheres podem ser tetracromatas, deixando os homens para trás nesse quesito. O fato, na verdade, casa muito bem com a incidência masculina mais alta de problemas com visão de cores.

Como muitos genes que codificam opsinas estão localizados no cromossomo X, as mulheres estão mais protegidas por terem duas cópias desse cromossomo; se há uma falha numa cópia do gene, a outra serve de "backup". Já os homens, como possuem um cromossomo X e um Y, não têm a mesma sorte.

A mesma vantagem feminina poderia estar por trás de sua visão tetracromática. Alguns pesquisadores propõem que, como as mulheres eram as principais coletoras de frutos e outros vegetais ao longo da evolução humana, faz sentido que elas tivessem essa visão mais apurada para detalhes de cor. Se for verdade, será mais uma prova de que, embora esse negócio de perfeição dos seres vivos seja uma bobagem, as coisas quase sempre podem ser melhoradas.