terça-feira, 14 de outubro de 2008

100 anos de síntese da amônia, a descoberta que mudou o mundo



Em 1908, o químico alemão Fritz Haber publicou o primeiro trabalho sugerindo a possibilidade técnica da síntese da amônia a partir do nitrogênio e do hidrogênio atmosféricos. Dez anos depois ele ganharia o Prêmio Nobel de Química por esta descoberta. Dois anos após o artigo inicial, em 1910, a empresa Basf comprou sua patente. Carl Bosch, engenheiro metalúrgico da empresa, transformou a possibilidade teórica prevista por Haber em uma realidade prática. Os aperfeiçoamentos renderiam a Bosch o mesmo Prêmio Nobel de Química em 1931.
Na foto: A esquerda Fritz Haber e a direita Carl Bosch.


Processo Harber-Bosch


O que passaria para história como o Processo Harber-Bosch daria início a uma nova fase não apenas da agricultura e da indústria mundiais, mas também da própria forma de vida de nossa civilização. Hoje, um século mais tarde, bilhões de pessoas são alimentadas graças a essa descoberta. Foi a síntese da amônia que permitiu o desenvolvimento dos fertilizantes químicos nitrogenados sintéticos que hoje garantem a produtividade de quase metade de toda a agricultura mundial. Mas também foi esse mesmo processo que colocou em movimento uma série de alterações ambientais que hoje nos afetam mais do que nunca, e que viabilizou muitas das armas que fomentaram os conflitos armados nesse seu primeiro século de história.

A invenção mais importante do século

"A crescente demanda por alimentos e biocombustíveis torna o uso eficiente dos fertilizantes nitrogenados e formas mais sustentáveis de energia, um desafio para muitos. O processo Haber-Bosch é provavelmente a invenção mais importante do século XX, ainda que ela tenha tido muitos efeitos colaterais. Agora nós precisamos de uma nova invenção que altere o mundo na mesma magnitude, mas sem o impacto ambiental," comenta o professor Jan Willem Erisman, um dos autores de um artigo que analisa o impacto da descoberta da sintetização da amônia.

Dependência do nitrogênio

Segundo o artigo, nós agora vivemos em um mundo que foi transformado pelo processo Haber-Bosch e que se tornou altamente dependente do seu nitrogênio. Esse nitrogênio extra tem permitido a produção de explosivos em larga escala, que já resultaram em milhões de mortes.
Por outro lado, ele criou uma gigantesca indústria química que produz a maioria dos produtos que trazem conforto para o nosso dia-a-dia. E permitiu a produção em larga escala de fertilizantes que mantêm a produtividade da agricultura que hoje é responsável por alimentar quase metade da população da Terra.
O mal uso dos fertilizantes, contudo, também tem trazido sérios danos ao meio ambiente, entre os quais a redução da biodiversidade e a formação das marés vermelhas. Os compostos de nitrogênio também ameaçam a qualidade da água potável e afetam a saúde de todas as pessoas que consomem essa água.
E os cenários futuros sugerem que esses problemas poderão se ampliar, caso o mundo caminhe no sentido de utilizar em larga escala biocombustíveis feitos a partir de plantas que consumam grandes quantidades de fertilizantes nitrogenados.

Necessidade de uma nova tecnologia

É por isso que os autores do artigo afirmam que o mundo está precisando de outra inovação tão disruptiva quanto o processo Haber-Bosch - mas sem seus efeitos colaterais.
Os autores do artigo, infelizmente, não possuem a solução. Segundo eles, o único caminho, antes que uma nova tecnologia emerja, é discutir com a sociedade o que ela deseja para si e quais são os tipos de confortos e desafios com que ela pretende se deparar nos próximos 100 anos.
A ciência, contudo, não está parada. Vários progressos têm sido feitos nos anos recentes para o desenvolvimento de novas formas de se fixar o nitrogênio e novas formas de produzir amônia.
Bibliografia:
How a century of ammonia synthesis changed the world
Jan Willem Erisman, Mark A. Sutton, James Galloway, Zbigniew Klimont, Wilfried Winiwarter
Nature Geoscience
October 2008
Vol.: 1, 636 - 639
DOI: 10.1038/ngeo325

Um comentário:

david santos disse...

Excelente!
Do ponto de vista pedagógico prova que na net se pode aprender muito.
Muito obrigado, amigo. Embora tivesse conhecimento do que aqui nos "contas", eu adorei ler este trabalho.
Parabéns.